Há cheiros que não obedecem ao calendário. Não envelhecem no mesmo ritmo das coisas. Não se deixam arquivar em gavetas, álbuns, caixas de sapato ou fotografias amareladas. Eles atravessam décadas com uma liberdade misteriosa, como quem cruza uma rua antiga ao entardecer, certo de que ainda será reconhecido do outro lado. Não vivem apenas nas narinas. Moram mais fundo. Instalam-se nas dobras da memória, nas rugas que o espelho revela sem pedir licença, nas risadas que voltam de repente, nas lágrimas que chegam sem aviso, nos nomes que a gente quase esqueceu, nos bailes que ficaram suspensos em algum salão da juventude.
Há perfumes que não despertam apenas lembranças. Despertam o coração. E entre todos os aromas que marcaram os anos 80 e 90, há um nome que ainda flutua no ar da saudade com brilho próprio, como um cometa teimoso cruzando o céu da memória: Contouré.
Dizer esse nome já é abrir um frasco invisível. É sentir, antes mesmo de explicar, aquele acorde inconfundível, cítrico e doce, onde a mandarina e a bergamota pareciam dançar com o mistério profundo do almíscar. Não era apenas cheiro. Era presença. Era anúncio. Era uma espécie de coragem líquida guardada em vidro. O perfume dos sonhos possíveis, das paixões nascidas nas esquinas, dos adolescentes que queriam parecer adultos e dos adultos que, no fundo, desejavam permanecer adolescentes para sempre.
Nos tempos do ronca, quando o vento ainda era o melhor mensageiro e o amor se anunciava em cartas dobradas, olhares demorados e bilhetes passados discretamente entre cadernos, o Contouré reinava com autoridade própria. Não era só um frasco esquecido sobre a penteadeira ou sobre a cômoda do quarto. Era símbolo. Ritual. Talismã. Um pequeno amuleto de vidro capaz de alterar o humor de uma tarde, a coragem de uma saída, a confiança de um encontro.
Bastava um toque atrás da orelha, outro no pulso, talvez um reforço generoso no pescoço ou na camisa, e alguma coisa começava a mudar. Não exatamente no espelho, embora o espelho também participasse da cerimônia. Mudava por dentro. O corpo se ajeitava. O olhar ganhava firmeza. O sorriso saía com mais facilidade. A timidez recuava dois passos. O mundo parecia mais possível.
O rapaz tímido, que antes ensaiava frases diante do espelho, saía de casa com postura de conquistador. A moça simples, pronta para a festa do sábado, atravessava a sala como quem já sabia que a noite teria música, luz colorida e talvez uma lembrança para guardar. O Contouré tinha esse dom raro da metamorfose. Era uma armadura feita de cheiro e coragem. Uma roupa que ninguém via, mas todo mundo percebia. E como era forte o seu feitiço.
As ruas, os salões, as praças, os corredores das escolas e as portas das festas eram atravessados por trilhas aromáticas. O perfume chegava antes da pessoa, como um mensageiro apressado. Antes que o corpo dobrasse a esquina, o ar já avisava:
— Ele chegou.
Ou então:
— Ela está perto.
Era uma época em que o cheiro fazia parte da identidade. Cada pessoa parecia carregar uma assinatura invisível. E o Contouré, com sua presença marcante, escrevia nomes no ar. Havia quem não soubesse falar bonito, mas sabia chegar perfumado. Havia quem não tivesse roupa cara, mas tinha presença. Havia quem não tivesse coragem de declarar amor, mas deixava no caminho um rastro doce, cítrico, insistente.
O frasco era discreto, mas escondia um poder quase alquímico. Naquele tempo, ninguém falava em notas olfativas, pirâmides aromáticas, projeção, fixação, família olfativa. Esse vocabulário sofisticado ainda não tinha invadido as conversas de balcão, os salões simples, os quartos de família. Falava-se de outro jeito, mais direto, mais popular, mais verdadeiro. Falava-se de impacto. De cheiro bom. De perfume forte. De perfume que “fica”. De cheiro de gente bonita. De cheiro de quem sabe o que quer — ou de quem, pelo menos naquela noite, queria acreditar que sabia.
Era também um tempo em que perfume bom não precisava custar uma fortuna. Não era preciso atravessar shopping elegante, nem encarar vitrines intimidadoras, nem parcelar um luxo internacional. Bastava entrar numa lojinha de esquina, numa farmácia com letras cursivas na fachada, num pequeno comércio de bairro, e ali estava ele: acessível, desejado, democrático. Por poucas moedas, levava-se para casa um pedaço de glamour.
O Contouré tinha essa beleza: não pertencia apenas aos endinheirados. Perfumava operários e estudantes, bancários e poetas, donas de casa e namorados de fim de semana, moças de vestido simples e rapazes de camisa engomada, gente que saía para a missa, para a pelada, para o baile, para a escola, para o primeiro encontro. Era perfume de todos, e por isso mesmo tornou-se memória coletiva. Não fazia distinção social. Fazia encontros.
Nas festas de sábado, antes mesmo do primeiro acorde do Biquini Cavadão ou de Roupa Nova ecoar nas caixas de som, o ar já estava tomado por uma névoa aromática. Era uma guerra silenciosa de perfumes, e o Contouré comandava as tropas. Misturava-se às luzes coloridas, ao suor da dança, ao laquê dos cabelos, ao brilho das roupas, ao refrigerante derramado na mesa, ao riso desinibido dos jovens que acreditavam, com fé absoluta, que o mundo era eterno e que o amor podia começar com um olhar certo, uma música lenta e um perfume bem escolhido.
A pista tinha sua própria meteorologia. Havia nuvens de ansiedade, ventos de paquera, tempestades de ciúme, relâmpagos de coragem. E no meio de tudo, o Contouré pairava como clima oficial da juventude. Quem dançava deixava perfume no ar. Quem passava deixava rastro. Quem abraçava impregnava o outro de lembrança. Quantos casais não se reconheceram primeiro pelo cheiro antes de se reconhecerem pelo destino?
As moças sabiam distinguir o namorado pelo perfume. Bastava uma brisa atravessar o portão, a calçada ou o salão, e o coração já se adiantava:
— Ele está chegando.
E lá vinha ele, o príncipe do Contouré, camisa semiaberta, cabelo domado por brilhantina ou penteado com cuidado, olhar de quem acreditava piamente que aquele aroma era uma extensão de sua própria alma. E era. Porque há perfumes que não apenas acompanham uma pessoa: tornam-se parte dela. Falam quando a voz falha. Pedem passagem quando a timidez trava. Dizem “estou aqui” antes que a boca tenha coragem.
O Contouré virou assinatura invisível de uma geração que queria marcar presença — literalmente. Ser lembrado pelo cheiro era quase um projeto de vida. Ninguém queria passar apagado. Ninguém queria ser apenas mais um na multidão. O perfume era uma forma de existir com mais intensidade. Uma declaração sem papel. Uma bandeira hasteada no corpo. Claro, os exageros faziam parte do charme.
Sempre havia aquele que acreditava que mais perfume significava mais sucesso. O rapaz não se perfumava: tomava banho de Contouré. Passava no pescoço, no peito, nos braços, na camisa, talvez até nos tornozelos, por garantia. Saía de casa envolto numa nuvem tão intensa que os cachorros da rua levantavam a cabeça, as vizinhas percebiam da janela, e a mãe, escandalizada, soltava a sentença:
— Meu Deus, menino, parece que caiu dentro do frasco!
Mas ele, seguro em sua convicção aromática, respondia com a filosofia imbatível dos jovens de sábado à noite:
— Melhor ser lembrado por cheiro bom do que por cheiro nenhum.
E seguia, glorioso, deixando atrás de si uma trilha capaz de orientar qualquer coração perdido.
Mas o Contouré tinha também seu lado mais delicado, talvez o mais duradouro: o lado romântico. Quantas histórias de amor começaram sob sua atmosfera? Quantas danças lentas carregaram aquele aroma entre dois corpos tímidos? Quantos abraços demorados, quantos beijos roubados, quantas mãos suadas, quantas despedidas no portão tiveram Contouré como testemunha?
A memória amorosa tem cheiro. E quem viveu aquele tempo sabe. Anos depois, às vezes décadas depois, basta uma fragrância parecida surgir no ar para que o passado se mova. O coração dá um salto. A rua muda de luz. O corpo retorna a uma noite antiga. A música volta. A pessoa que se julgava esquecida aparece inteira, não como fotografia, mas como presença. O perfume faz o que nenhuma razão consegue: abre portas que o tempo fechou.
E, de repente, lá está a juventude outra vez. Aquela festa. Aquela música lenta. Aquele olhar atravessando o salão. Aquela mão tocando a cintura com cuidado. Aquela frase nunca dita. Aquele beijo que talvez tenha durado poucos segundos, mas permaneceu perfumando uma vida inteira.
O Contouré não separava gêneros na memória. Homens e mulheres o usavam, o desejavam, o partilhavam. Era comum o mesmo frasco morar sobre a cômoda do casal. Ela usava antes da missa, antes de uma visita, antes de sair com as amigas. Ele usava antes da pelada de domingo, antes do trabalho, antes de encontrar os amigos, antes de fingir que não estava se arrumando para alguém. O cheiro circulava pela casa como um parente íntimo. Entranhava-se nas cortinas, nos travesseiros, nas toalhas, nas roupas penduradas atrás da porta. Virava ambiente. Virava lar.
Nas manhãs de domingo, o Contouré ainda pairava nas ruas, misturado ao cheiro do pão quente, do café passado, da calçada molhada, da roupa no varal e do eco distante das risadas da noite anterior. Era o perfume de um tempo mais lento, mais humano, mais sensorial. Um tempo em que as pessoas se preparavam para sair, esperavam umas pelas outras, escreviam cartas, guardavam guardanapos, telefonavam de orelhão, marcavam encontros sem localização em tempo real e confiavam que o outro chegaria. Não era apenas perfume. Era atmosfera.
O Contouré estava nas cartas perfumadas enviadas pelos Correios, nas folhas dobradas com cuidado, nos envelopes guardados dentro de livros, nos bilhetes que atravessavam carteiras escolares, nos guardanapos de festa conservados como relíquias, nos abraços que deixavam cheiro na roupa depois da despedida. Estava nas penteadeiras, nos armários, nas bolsas, nos bolsos, nos banheiros de azulejo antigo, nas gavetas onde a juventude escondia seus pequenos segredos.
Com o passar dos anos, vieram outros perfumes. Mais caros, mais sofisticados, mais discretos. Frascos elegantes, campanhas internacionais, nomes estrangeiros, promessas de exclusividade. Vieram tendências, importados, aromas minimalistas, fragrâncias de assinatura refinada. Mas nenhum conseguiu apagar o Contouré da memória afetiva de quem viveu seu tempo. Porque certos perfumes não competem no luxo; vencem pela lembrança. Não precisam ser perfeitos. Precisam ter pertencido a uma fase da vida em que tudo parecia começar.
O Contouré ficou guardado como um primeiro amor. Imperfeito, intenso, talvez exagerado, mas inesquecível. Daqueles amores que o tempo pode afastar, mas não consegue ridicularizar. Porque foi verdadeiro no momento em que aconteceu. Porque acompanhou descobertas. Porque esteve presente quando o coração ainda aprendia seus próprios sustos.
E se hoje, andando por uma rua qualquer, talvez numa tarde comum, uma brisa insistente trouxer o eco daquele cheiro cítrico e doce, não estranhe o sobressalto. Não é apenas perfume. É o tempo soprando memórias. É a juventude chamando de volta. É uma porta antiga abrindo sem ruído. É o menino vaidoso, a moça sonhadora, o baile de sábado, a carta dobrada, o portão da casa, o abraço demorado, tudo reaparecendo por um segundo no ar.
O Contouré foi mais que um aroma. Foi uma época engarrafada. Foi ousadia e ternura. Foi o cheiro das festas, dos amores, das descobertas e das despedidas. Foi o perfume de quem queria ser notado, amado, lembrado. Foi a trilha invisível de uma geração que aprendeu a se anunciar antes mesmo de falar.
Talvez ainda esteja por aí, flutuando invisível no mundo, misturado ao primeiro beijo, ao refrão de uma música antiga, ao rastro de alguém que partiu deixando perfume antes de dobrar a esquina. Talvez more nas gavetas de algumas casas, em frascos quase vazios, guardados não pelo líquido que resta, mas pelo tempo que ainda respiram. Talvez viva apenas na memória — e isso basta.
Porque o tempo passa. Sempre passa. Leva penteadeiras, bailes, cartas, farmácias de esquina, discos, salões, camisas semiabertas, cabelos com brilhantina, sábados que pareciam eternos.
Mas há coisas que o tempo não consegue levar por completo. O Contouré, ah, o Contouré, continua ali. Não apenas no ar. Na eternidade secreta de quem um dia saiu perfumado para encontrar a própria juventude.
Foto: Divulgação
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