Antes dos tênis com espuma de nuvem, placas de carbono e promessas em inglês sobre velocidade e desempenho, havia um calçado que oferecia algo mais simples: sobreviver. Chamava-se Kichute. Não media passada, media resistência. Era o tanque de guerra das escolas públicas, o trator das ruas de barro, a chuteira das várzeas, o uniforme extra do recreio. Quem passou dos cinquenta sabe: não era apenas um par de tênis. Era uma espécie de coragem amarrada na canela.
A compra começava com solenidade. A caixa marrom chegava às mãos com a estampa da marca e aquele papel de seda que rangia como pequena fogueira. Ao abrir, vinha o primeiro bafo de borracha nova, cheiro forte de fábrica que, para um menino, significava futuro. Lá dentro estava ele: preto, sério, robusto, com uma fina poeira de fabricação sobre o cabedal de lona. O bico arredondado parecia preparado para enfrentar qualquer obstáculo. Na sola, pequenos cravos anunciavam que aquele calçado não tinha sido feito apenas para caminhar.
E havia os cadarços. Longos, compridos demais para qualquer lógica moderna, pareciam cordas destinadas a prender o próprio dia às pernas. Calçar o Kichute era um ritual: meia bem puxada, língua ajeitada, dedos empurrando a palmilha onde quase sempre havia um nome escrito a Bic — “é meu, ninguém mexe”. Depois vinha o nó, a volta por trás, outra pela frente, duas ou três voltas na canela. O tornozelo desaparecia sob aquela amarração de guerra. No espelho torto da sala, o menino parecia crescer alguns centímetros de coragem.
Na escola, o Kichute não era moda. Era quase lei. Não havia grande escolha de cor ou combinação: preto e pronto. Combinava com tudo justamente porque não tentava combinar com nada. No pátio, dezenas de pares alinhados formavam uma tropa silenciosa, bicos negros apontados para o futuro, solas nervosas esperando o recreio. Bastava o sinal tocar para a disciplina desmanchar. E então o Kichute mostrava sua verdadeira vocação: virar chuteira.
As traves podiam ser dois cadernos, duas pedras, duas mochilas jogadas no chão. A bola, muitas vezes, já vinha cansada de outras batalhas, e o cimento não perdoava joelhos nem cotovelos. Mas quem estava de Kichute entrava no jogo com certa confiança, porque aquela sola mordia o mundo. No barro, tornava-se quase anfíbio, patinando menos e avançando mais. Em bola molhada, uma bicuda soava como granizo no telhado.
O calçado tinha também sua própria música. Na ladeira, fazia uma batucada grave — tuc, tuc, tuc — quando uma turma descia correndo como pequeno exército infantil. Na quadra, a borracha raspava o cimento num chirr-chirr áspero, acompanhando dribles e arrancadas. Nos corredores de madeira, o som virava trovão oco e denunciava qualquer corrida antes que a inspetora levantasse os olhos. “Devagar, meninos!”, vinha o aviso. A sola ainda deixava assinaturas: flor de borracha na lama, meia-lua no pó e carimbo escuro no mosaico da cozinha.
Kichute novo cheirava a promessa. Uma semana depois, já cheirava a história. Havia suor de recreio, sol do meio-dia, chuva da volta para casa, poeira enterrada na lona e barro seco nas ranhuras. Era um odor que não desaparecia; amadurecia. Todo mundo fingia desgosto, mas havia certo orgulho naquele cheiro de uso. Era quase um currículo: eu jogo, eu corro, eu caio, eu levanto. Alguns pais passavam um fio de graxa no bico para “dar presença”; outros preferiam jornal amassado por dentro para beber a umidade do dia.
Lavá-lo era prova de caráter. Bacia de plástico, água de torneira, sabão em pó fazendo espuma, escova de piaçava e braço trabalhando sem descanso. Primeiro a lona, esfregada até o preto reaparecer por baixo da poeira. Depois a sola, virada para cima, com barro retirado das ranhuras por palito, graveto ou qualquer instrumento disponível. O enxágue parecia catarata. Depois vinham jornais por dentro e sombra para secar, porque a sentença das avós era definitiva: sol demais racha a borracha.
No futebol de rua, o Kichute ensinava uma ciência particular. Era preciso travar o pé para não acertar a canela do adversário, embora nem sempre desse tempo. Aprendia-se a dominar a bola com a sola, puxar para trás, usar os cravos como relevo, ajustar o corpo ao terreno. No paralelepípedo, cada junta entre as pedras cobrava seu pedágio no tornozelo. O corpo corrigia o passo quase por instinto. Era uma aprendizagem sem livro: o chão ensinando diretamente pelos pés.
Subir em árvore também fazia parte do currículo. A lona abraçava o tronco e os cravos procuravam apoio na casca. Para descer barranco, a sola virava freio: pé em diagonal, braços abertos, joelhos flexionados, corpo negociando com a gravidade. Na bicicleta sem freio, então, o Kichute assumia outra profissão. A sola cruzava o pneu traseiro e surgiam cheiro de borracha quente, às vezes fumaça, sempre um grito satisfeito. “Vai acabar com o tênis!”, alguém berrava — e ia acabar mesmo, porque gastar também era uma maneira de viver.
O Kichute custava suor de gente grande. Por isso precisava durar. Aguentava um ano letivo inteiro e, às vezes, atravessava dois. Quando o pé do irmão mais velho crescia, o tênis passava para o do meio; depois para o menor, o primo, o vizinho. Linhas de parentesco se entrelaçavam pelos mesmos cadarços. O calçado amaciava num pé e precisava reaprender outro. Não era objeto descartável: tinha biografia.
A própria caixa continuava trabalhando depois da compra. Virava depósito de botões, pregos, parafusos, fotografias 3×4, figurinhas repetidas, barbantes e cartas esquecidas. Nada se aposentava cedo naquele tempo. Quando a lona do Kichute rasgava na dobra, ainda havia o sapateiro. Cola de contato, grampo, linha encerada, pesponto. O remendo não escondia a ferida; transformava-a em medalha. “Segura mais um tempo”, dizia o homem atrás do balcão — e segurava.
O Kichute tinha uma espécie de democracia própria. No pátio da escola, diminuía diferenças, porque ricos e pobres podiam aparecer com o mesmo preto nos pés. Ensinava paciência pelo cadarço comprido, disciplina pelo cuidado, resistência pela pedra, limite pelas bolhas do calcanhar. Ensinava também ética do jogo: chute por baixo não vale, por cima dói, e quem machuca precisa pedir desculpa. Não era uma pedagogia escrita. Era aprendida no corpo.
Havia outros calçados: Congas, Bambas, tênis mais leves, mais urbanos, mais comportados. Eram bons para sala de aula, passeio, cidade. O Kichute era outra espécie. Parecia feito de rocha e caminhão. No baile de sábado, talvez fosse melhor escolher outro. Mas, diante de uma rua de terra no domingo, ele parecia dizer: “deixa comigo”. E a gente deixava.
A relação com a escola produzia suas próprias batalhas. “Não entra com Kichute na sala!”, gritava a professora ao perceber a lama chegando pelo corredor. Começava então a operação de limpeza: pé erguido, mão na parede, palito entre os cravos, papel no bico, movimentos rápidos para apagar os rastros. No ônibus, o tênis virava estribo, prendendo o corpo durante as curvas. Na fila do cinema, era âncora da ansiedade. Estava em toda parte, como se acompanhasse a infância para garantir que ela não escapasse.
Também doía. Uma bicuda mal dada deixava a canela do outro roxa; uma raiz escondida fazia o dedão cantar; uma corrida mais longa produzia bolha e ardência. Mas a dor trazia manual para a próxima tentativa: levanta o olhar, reduz o passo, antecipa a pedra, não entra assim. Aos poucos, o corpo aprendia o terreno pela sola. Era uma educação feita de tropeços. E talvez por isso ficasse tão profundamente gravada.
Havia orgulho nas marcas. Joelho ralado, pedrinhas presas na pele, esparadrapo em X, canela arranhada e o Kichute ao lado como cão de guarda. Nas fotografias de turma, uma fileira de sapatos negros aparecia embaixo das crianças sorridentes. Todos parecidos e todos diferentes. Eram irmãos de guerra, sobreviventes da mesma poeira. O Kichute não precisava de legenda. Bastava olhar para saber: aquela gente estava vivendo.
Até que chegava a sentença. A sola começava a abrir, a lona esgarçava, o cadarço virava cipoal e nem o sapateiro encontrava mais argumento. A mãe olhava para aquele sobrevivente e dizia: “Já deu”. Era um luto discreto. A caixa nova chegava, o cheiro de fábrica invadia novamente a casa, e o velho par era aposentado. Talvez virasse vaso de manjericão, talvez ficasse na área de serviço para o famoso “vai ali rapidinho”, talvez desaparecesse sem cerimônia.
Mas ele nunca ia embora completamente. Anos depois, basta pisar em terra molhada para alguma coisa grave bater no fundo da memória: tuc, tuc, tuc. Ao amarrar o cadarço de um tênis caro, macio e tecnológico, as mãos quase repetem sozinhas a antiga trança na canela. Quando o corpo tropeça e se recupera antes do pensamento, alguma velha lição permanece. Quem ensinou? Talvez tenha sido aquele par preto, pesado e obstinado.
O Kichute era um professor vestido de sapato. Ensinava que avanço não se mede apenas em quilômetros, mas em quedas e retomadas. Que firmeza nasce da intimidade com o chão. Que resistência não é pose; é costume. Que o caminho terá pedra, barro, buraco, raiz e descida — e nem por isso deixa de merecer corrida. Num mundo que trocou parte da poeira por pixels, ele continua lembrando uma infância que aprendia fazendo.
Se um dia você encontrar um par de lona preta, bico arredondado, sola marcada e cadarços longos demais para a pressa de hoje, aproxime-se. Abra a caixa. Respire fundo. Talvez o cheiro de borracha traga junto um pátio de escola, uma bola batendo no cimento, uma professora gritando ao fundo e uma turma descendo a ladeira. Talvez alguém ainda berre dentro da lembrança: “Tira o pé, Kichute!” E talvez seus pés peçam licença para amarrar outra vez a coragem na canela.
Porque o Kichute nunca foi apenas um tênis. Foi um pedaço de infância com sola, poeira, suor, remendo e memória. E certas infâncias, quando bem vividas, não desaparecem. Continuam acompanhando o corpo em silêncio, como um calçado antigo que já não existe no armário, mas ainda conhece perfeitamente o caminho.
Foto: Divulgação
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