Por Pitter Lucena*
No começo era o ruído: a água amanhecendo no igarapé, o vento penteando as folhas, o galo abrindo, no terreiro, o relógio de Deus. Logo depois vinha outro som, mais íntimo e antigo: o chiado áspero da areia na barriga do alumínio. Era uma música de braço, de paciência e de casa acordada. Quem viveu o tempo do ronca reconhece esse som como se reconhece a voz de uma avó chamando do fundo da cozinha.
Arear panelas não era simples limpeza. Era rito, ofício e pequena ópera doméstica encenada entre água, cinza, areia e sol. Naquele mundo de fogão a lenha e quintal batido, o brilho das panelas não era detalhe: era destino. Havia quem dissesse que uma casa começava pelo telhado. Mas as mulheres antigas sabiam melhor: uma casa começava no fundo da panela, quando o primeiro círculo de luz devolvia, inteira, a face de quem cuidava dela.
A moça descia para a beira d’água ainda cedo, levando a bacia de alumínio, o sabão de cinza embrulhado num pano e uma cabaça para colher a areia viva. Não servia qualquer areia. Tinha de ser a grossa, miúda, orgulhosa, aquela que estalava na palma da mão como sal grosso. Areia cega, diziam, não dá brilho. A boa mordia a mancha, conversava com o preto da fumaça e chamava a luz pelo nome. A avó ensinava:
— Circular, menina. Sempre circular. A força vem do braço, mas o segredo é do pulso.
E ali começava a aula. Primeiro, lavar o medo. Depois, firmar o braço. Por fim, desenhar no metal uma constelação de círculos. No começo, só havia esforço. O alumínio resistia, preto de fumaça, carregado de feijões, sopas, caldos, almoços e noites. Mas, de repente, surgia um clarão tímido, estrela-d’alva nascendo no fundo da panela. A moça sorria. A avó corrigia, severa e doce:
— Solta o peso. Arear não é brigar com a panela. É dançar com ela.
E era dança mesmo. Se apertasse demais, feria. Se afrouxasse demais, não limpava. Era preciso encontrar o equilíbrio exato entre firmeza e delicadeza. As panelas tinham alma. Havia a caldeirinha que preferia areia de barranco sombreado, a frigideira que respondia melhor ao sabão de cinza, o caldeirão velho que só reluzia quando alguém cantava baixinho. Cada utensílio carregava sua biografia de fogo.
Arear também era assembleia. As mulheres se alinhavam à beira do igarapé, pés firmes no barro, saias presas, braços em movimento. Enquanto a areia riscava o metal, as vozes poliam o cotidiano. Falavam de partos, promessas, roçados, doenças, namoros, rezas, medos e lendas. O boto de chapéu. A onça rondando o curral. O Caboclo d’Água no remanso. Entre um boato e outro, surgia uma sabedoria:
— Não deixa a sombra cruzar a panela no meio do polimento. Mancha pega.
— Sol de meio-dia sela o brilho.
— Quem assobia alto estraga o reflexo. O alumínio gosta de silêncio.
Era uma ciência de sinais. A cidade tinha fórmulas; o interior tinha pressentimentos. E funcionava, porque nascia da repetição, da escuta, da intimidade com o fogo, a água e o metal.
Ao meio-dia, as panelas recém-areadas eram estendidas no terreiro, viradas para o céu. Pareciam luas grávidas de luz. O sol assinava a obra. Havia quem fizesse o sinal da cruz, quem traçasse um peixe invisível com o dedo molhado, quem soprasse de leve para afastar olho grande. As crianças corriam em volta, tentando ver o próprio rosto na curva metálica. Quando conseguiam, riam como se tivessem ganhado outro nome.
Ninguém diga que era só faxina. Era rito, e rito tem juízes. As sogras chegavam com unhas de sentença. Tomavam café, perguntavam do tempo e, num gesto fingidamente distraído, passavam o dedo na borda da panela. Se a unha saísse limpa, vinha o elogio raro:
— Caprichosa.
Se viesse cinza, o veredito caía pesado:
— Ainda não aprendeu a conversar com o brilho.
Conversar com o brilho. Essa era a expressão. Porque a limpeza não era apenas retirar sujeira. Era estabelecer uma relação com a casa. Era mostrar que havia cuidado, disciplina, zelo, presença.
Havia até Campeonato de Brilho nas festas de padroeiro, como se o povo precisasse transformar trabalho em celebração. As panelas alinhadas no salão da quermesse, numeradas, vigiadas por três comadres e um tio bom de vista. Vencia quem alcançasse o Grau Sol de Agosto: brilho capaz de devolver os olhos de quem olhava e ainda guardar, no fundo, a sombra da igreja. Diziam que uma panela refletiu a lua ao meio-dia. Talvez lenda. Talvez milagre. O importante é que a família ganhou um saco de café e fama de casa bem governada.
No teatro antigo das famílias, o brilho também servia de idioma. O rapaz chegava com o pai, a moça com o destino. Falavam de roçado, galinheiro, telhado. O rapaz olhava a moça. A sogra da sogra olhava as panelas. Se estavam reluzentes, sem farpas, sem neblina, o futuro respirava melhor:
— Pode marcar a data.
A panela falava antes da noiva.
Mas havia dureza. Arear exigia braço, coluna, fôlego. O sol fazia do terreiro uma chapa. A mão ressecava. As costas reclamavam. Ainda assim, vinha uma alegria antiga da fadiga: a de ver o mundo obedecer à palma da mão. As tias chamavam esse momento de silêncio do alumínio — quando a panela já polida parecia respirar junto com a casa.
E havia superstições delicadas: não derramar lágrima no alumínio, porque tristeza empana; não arear em trovoada, porque o raio conhece o metal; não olhar de cara amarrada para a panela, porque reflexo guarda mau humor. Hoje podemos rir. Mas aquelas delicadezas ensinavam respeito. A casa, tratada como coisa viva, respirava melhor.
Quando a pilha de panelas feiticeiras ficava pronta, começava outro espetáculo: o almoço. A panela que havia mostrado o céu recebia a cebola cantando na banha, o alho explodindo em perfume, a farinha aceitando o beijo do fogo. O reflexo virava sabor. Arear, no fundo, era preparar o palco para a comida acontecer.
Depois vieram a palha de aço, o detergente cheiroso, a esponja, a pressa. O brilho ficou mais rápido, mas perdeu parte da liturgia. As meninas já não aprenderam o mapa do braço. As sogras aposentaram a unha fiscal. As quermesses trocaram o Campeonato de Brilho por bingo de micro-ondas. A cidade inventou um lustro sem conversa.
Ainda assim, a memória arma ciladas bonitas. Um caldeirão velho aparece no fundo do armário, preto na barriga, emudecido pelo tempo. A gente umedece um punhado de areia, improvisa sabão de cinza, respira fundo. O braço, acostumado a digitar, estranha. Mas o alumínio reconhece. Chia doce, como quem diz: voltou. No terceiro círculo, volta a voz da avó:
— Circular, sempre circular.
O progresso melhora muita coisa. Mas há feitiçarias que se perdem quando o atalho fica curto demais. Arear panelas era um pacto com a permanência. A cada círculo, polia-se o metal e apaziguava-se o mundo. Era como lixar a raiva, lustrar o cuidado, devolver dignidade ao uso. O brilho era só o resultado visível. O invisível era o que ficava: a casa mais redonda, a conversa mais mansa, a fome tratada com respeito.
Talvez um dia inventem um aplicativo que simule o reflexo do alumínio antigo, com ruído de igarapé e cheiro de fumaça. Será bonito. Mas faltará a música exata da areia roçando o fundo. Faltará o pequeno milagre do sol assinando a obra. Porque o brilho verdadeiro — esse que devolve na panela a imagem de quem somos quando cuidamos — não se baixa. Se faz.
E se hoje a pressa nos toma pela mão, guardemos ao menos um punhado daquela areia na memória. Quando o mundo embaçar, é com ela que se lembra o caminho de volta: água, cinza, braço, silêncio, e o sol, no fim, assinando o brilho.
Arear panelas nunca foi apenas limpar. Foi esculpir um espelho onde a vida se reconhece. Circular, sempre circular. Até o alumínio dizer amém. Até a casa, por dentro, ficar toda luz.
Foto: Divulgação
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