• 4 de junho de 2026

O Pequeno Planeta de Açúcar

Por Pitter Lucena*

Era uma vez — e é preciso começar assim, porque toda boa lembrança tem algo de fábula, mesmo quando nasceu de chão de cimento e balcão de madeira — um tempo em que os mercadinhos eram pequenos reinos de encanto. Não tinham portas automáticas, nem corredores infinitos, nem luz branca demais, nem carrinhos obedientes rangendo sobre pisos encerados. Tinham alma. Tinham cheiro. Tinham freguês pelo nome, caderneta de fiado, balança com peso de ferro, rádio AM chiando alguma notícia distante e uma poeira mansa descansando sobre as prateleiras, como se o tempo também entrasse ali para comprar um pouco de sossego.

E, no centro daquele pequeno universo de farinha, querosene, café moído, fubá fresco, sabão em pedra e conversa de fim de tarde, havia um trono de vidro e açúcar: o baleiro giratório.

Senhor absoluto do balcão. Imperador transparente das tentações. Pequeno planeta de vidro girando em seu próprio eixo, cheio de luas coloridas, estrelas embrulhadas e promessas doces. Ele não ficava simplesmente ali. Ele reinava. Tinha uma presença quase hipnótica, uma autoridade silenciosa, uma luz própria. Bastava a criança cruzar a porta do mercadinho para os olhos procurarem, antes de qualquer outra coisa, aquele monumento. O arroz podia faltar, o feijão podia estar caro, o querosene podia ter subido de preço, mas, se o baleiro estivesse no balcão, ainda havia esperança no mundo.

Os mercadinhos antigos eram herdeiros de uma tradição de armazéns, empórios e mercearias que durante muito tempo sustentaram a vida cotidiana das cidades e dos bairros. Antes da expansão dos grandes supermercados, a compra era mediada pelo balcão, pelo olhar do dono, pela confiança e pela conversa. Não se entrava apenas para pegar produtos: entrava-se para ser atendido, reconhecido, escutado. O dono sabia quem devia, quem pagava no sábado, quem comprava açúcar para doce de festa, quem levava fumo de rolo escondido, quem vinha apenas para prosear. Ali, o comércio ainda tinha rosto.

O baleiro era uma espécie de coração infantil desse mundo adulto. Enquanto os grandes discutiam preço do arroz, fiado atrasado, inflação, safra, doença, política e futebol, a criança se esquecia de tudo diante daquele objeto mágico. Ele prometia uma felicidade pequena, imediata, brilhante, ao alcance de uma moeda suada. E talvez por isso fosse tão poderoso: porque a infância entende melhor do que ninguém que as grandes alegrias quase sempre cabem em coisas mínimas.

A ida ao mercadinho era uma cerimônia. O chão de cimento frio parecia guardar o eco de muitas sandálias. As prateleiras de madeira rangiam discretamente, carregadas de latas, pacotes, garrafas e mistérios. O cheiro vinha em camadas: café torrado, fubá, açúcar, querosene, sabão, bala, poeira, papel de embrulho e, em algum canto, o perfume seco da madeira antiga. Era um cheiro impossível de reproduzir, porque não pertencia apenas aos produtos. Pertencia à vida que passava por ali.

A criança entrava com uma moeda escondida na palma da mão. Dez, vinte cruzeiros, quem sabe uma quantia menor, mas que pesava como ouro. A moeda esquentava no suor, marcava a pele, parecia aumentar de importância a cada passo. O caminho até o balcão era curto, mas tinha a extensão de uma procissão. Os olhos permaneciam fixos no baleiro, e o pensamento repetia uma pergunta íntima, uma oração açucarada: Será que hoje eu pego a de coco? Ou a de hortelã? Ou a de tamarindo? Ou aquela vermelha, misteriosa, brilhante, que ninguém sabia ao certo se era morango, cereja ou pura invenção?

O dono do mercadinho era o sacerdote daquele templo de tentações. Tinha lápis atrás da orelha, avental manchado, mãos treinadas para pesar farinha, contar moedas, embrulhar sabão e medir a ansiedade das crianças. Fingindo impaciência, dizia:

— Vai, menino, escolhe logo, antes que acabe o gás da lamparina!

Mas no fundo se divertia. Sabia que escolher uma bala não era coisa simples. Para adulto, podia parecer bobagem. Para criança, era uma decisão moral, estética e filosófica. Afinal, havia uma só moeda. Uma só escolha. Um só destino para a boca.

O baleiro de vidro, esse monumento humilde ao açúcar, geralmente se dividia em compartimentos. Alguns tinham cinco, seis, oito, doze espaços. Para a imaginação infantil, pareciam infinitos. Cada lado guardava um reino. Havia as balas de hortelã, refrescantes como vento entrando pela janela em tarde de calor. Havia as de tamarindo, azedinhas, traiçoeiras, capazes de fazer o rosto se contrair num susto delicioso. Havia as de morango, enroladas em papel metálico, reluzentes como vestido de princesa em festa de interior. Havia as carameladas, espessas e pacientes, que grudavam no dente, no céu da boca e na memória. Havia as de coco, brancas, delicadas, com gosto de casa limpa e domingo. E havia as misteriosas — aquelas cujo sabor ninguém sabia explicar, mas que venciam pelo brilho do papel.

O vidro ampliava tudo. As balas pareciam mais bonitas ali dentro. O vermelho era mais vermelho. O verde, mais verde. O amarelo tinha claridade de sol engarrafado. Cada papelzinho refletia a luz como se guardasse uma promessa secreta. O baleiro ensinava uma primeira lição de encantamento: a mesma bala, fora dali, talvez fosse apenas bala; dentro dele, era tesouro. Quando o baleiro girava, o mundo girava junto.

O som era delicado: o vidro rodando sobre a base, as balas se tocando, um tinir leve, quase musical, como se pequenas pedras preciosas conversassem em voz baixa. A criança acompanhava o movimento com os olhos. Cada volta revelava novas tentações. O compartimento desejado sumia e voltava, sumia e voltava, como carrossel de açúcar. O dedo tocava o vidro com cuidado. Girar o baleiro era privilégio. Não se girava com brutalidade. Era preciso respeito. O gesto pedia leveza, porque ali não se mexia apenas num objeto: mexia-se na sorte.

Havia baleiros que rangiam um pouco, como se reclamassem da idade. Havia os de tampa frouxa, os de vidro espesso, os de base metálica gasta pelo uso. Alguns traziam marcas de dedos, outros pequenas lascas, cicatrizes de comércio. Mas mesmo quando velhos, conservavam majestade. Um baleiro antigo tem a dignidade dos objetos que serviram muito. Parece saber mais do que diz. Parece ter ouvido milhares de pedidos infantis, milhares de indecisões, milhares de suspiros diante de uma moeda insuficiente.

A decisão nunca era fácil. A criança olhava para o baleiro, depois para o dono, depois para a moeda, depois novamente para o baleiro. Havia uma tensão quase dramática. A bala de hortelã prometia frescor. A caramelada prometia duração. A de tamarindo prometia aventura. A de morango prometia beleza. A de coco prometia conforto. A misteriosa prometia risco. E a infância, desde cedo, aprendia que toda escolha tem perda. Escolher uma bala era abandonar todas as outras.

Quando finalmente a decisão era tomada, vinha o gesto final. O dono girava o baleiro com a sabedoria de quem conhecia todos os seus humores. Abria o compartimento certo. Às vezes usava uma pequena pazinha, às vezes os próprios dedos rápidos e experientes. A bala caía na palma da criança com som de vitória. A moeda desaparecia no caixa, mas ninguém lamentava. O mundo estava pago. Então vinha o instante mágico: rasgar o papel.

O papel fazia seu pequeno barulho de festa. Algumas balas resistiam, grudadas ao embrulho pelo calor. Era preciso paciência. Outras se soltavam com facilidade, lisas e brilhantes, como pedras lavadas. O primeiro contato com a boca era revelação. A hortelã abria um vento. O tamarindo dava um choque. O caramelo demorava, solene, tomando posse dos dentes. A bala de morango espalhava sua doçura de infância fabricada. E, naquele momento, não havia preocupação, não havia conta, não havia futuro. Havia apenas o doce, o mundo e o tempo lento.

Os mercadinhos antigos tinham uma vida que hoje parece quase teatral. O balcão era palco. A balança era juíza. A caderneta do fiado era escritura de confiança. O rádio AM, sempre um pouco chiado, narrava o Brasil de longe. O dono do estabelecimento sabia medir o freguês sem humilhar. Sabia vender meia dúzia de ovos, um litro de querosene, uma quarta de café, um pacote de bolacha e uma esperança. Ali se comprava também notícia, conselho, rumor, remédio caseiro, opinião sobre o governo e palpite de jogo.

O baleiro girava no meio de tudo isso como um sol menor. Ficava entre o caderno do fiado e o pote de paçoca, entre a caixa registradora e a balança, entre o mundo dos adultos e o território sagrado da meninada. Era testemunha de pequenas cenas. O menino que contava moedas. A menina que pedia “uma daquela rosa”. O avô que fingia comprar para o neto, mas escolhia uma hortelã para si. A senhora que levava bala de gengibre “por causa da garganta”, mas mastigava com olhos de lembrança. O rapaz que comprava uma bala antes de encontrar a namorada, não por necessidade, mas para perfumar a coragem.

O baleiro unia gerações. Os adultos fingiam indiferença, mas também eram capturados por ele. Quem um dia foi criança nunca passa diante de um baleiro sem sentir alguma coisa. As balas, ali dentro, não eram apenas doces: eram pequenos dispositivos de retorno. A hortelã devolvia uma tarde. O caramelo trazia uma avó. O tamarindo chamava uma rua. O coco reacendia uma cozinha. A bala misteriosa lembrava o tempo em que o desconhecido não assustava tanto, porque quase sempre vinha embrulhado em papel colorido.

Nos anos em que os supermercados começaram a crescer e transformar o modo de comprar, muita coisa mudou. O autosserviço trouxe corredores, gôndolas, carrinhos, embalagens padronizadas, códigos, filas, caixas registradoras mais velozes. O freguês ganhou liberdade para pegar o produto com as próprias mãos, mas perdeu, em muitos lugares, a conversa do balcão. A compra ficou mais eficiente. Talvez mais prática. Mas uma parte do rito se desfez. As balas passaram a vir em sacos, penduradas em displays, embaladas em quantidades maiores, sem aquele suspense do vidro girando.

O baleiro foi sendo afastado, como rei deposto por uma revolução silenciosa. Primeiro saiu do centro do balcão. Depois foi para uma prateleira lateral. Depois sumiu. Em alguns lugares, virou decoração retrô, peça de lembrança, objeto de colecionador, coisa bonita em vitrine de café antigo. Mas quem o conheceu em sua função original sabe que ele não nasceu para enfeitar. Nasceu para girar. Nasceu para fazer criança escolher. Nasceu para transformar moeda em encanto.

Hoje, as crianças pegam balas de sacos industriais com naturalidade. Muitas nem olham. O doce virou item. O sabor virou consumo rápido. A escolha perdeu o teatro. Não há dono de mercadinho observando, não há moeda suada, não há compartimento de vidro, não há o tinir das balas se ajeitando umas contra as outras. A alegria ainda existe, claro, porque criança encontra encanto onde puder. Mas aquele ritual específico — aquela pequena solenidade de escolher uma bala no baleiro — tornou-se raro como uma fotografia antiga. Dentro da memória, porém, o baleiro continua girando.

Gira no balcão do mercadinho da esquina. Gira sob a luz do entardecer. Gira ao lado da balança de ferro. Gira diante do menino que ainda não sabe que aquele instante será lembrança. Gira com suas balas de hortelã, tamarindo, morango, coco e caramelo. Gira enquanto o dono faz conta no papel. Gira enquanto o rádio chia. Gira enquanto a mãe compra açúcar. Gira enquanto o mundo, lá fora, ainda é grande e a felicidade cabe numa moeda.

Talvez seja por isso que a lembrança do baleiro comova tanto. Ele representava um tempo em que o desejo tinha etapas: ver, esperar, escolher, pagar, desembrulhar, saborear. Hoje queremos tudo sem demora. Mas o baleiro ensinava que parte da alegria está antes da posse. Está no olhar. Está na dúvida. Está na volta do vidro. Está no quase.

Ah, se os baleiros voltassem a girar nos mercadinhos, talvez o mundo desacelerasse um pouco. Talvez as crianças descobrissem novamente a beleza da escolha demorada. Talvez os adultos lembrassem que a felicidade não precisa ser grande para ser verdadeira. Talvez uma moeda simbólica qualquer ainda pudesse comprar, por alguns segundos, a sensação de que tudo está no lugar.

Porque o baleiro de vidro não era apenas um objeto. Era uma pequena máquina de encantamento. Um relicário de açúcar. Um carrossel de sabores. Uma vitrine de inocência. Um calendário redondo de tardes antigas. Era o lugar onde a infância aprendia que o mundo oferece muitas cores, mas a gente só pode escolher uma de cada vez — e que, mesmo assim, vale a pena sorrir.

Quem o viu girar sabe. O som das balas dançando no vidro ainda ecoa dentro da alma. Um tinir pequeno, delicado, eterno. O tilintar da infância.

Foto: Divulgação


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