Quem esteve no comício organizado pelo PT em Ceilândia, na noite de quarta-feira (16), viu um Luiz Inácio Lula da Silva descarregar a sua raiva sobre o povo do Distrito Federal em discurso. O presidente disse com todas as letras que “não vai dar dinheiro para o BRB”, em meio à crise financeira enfrentada pelo Banco de Brasília.
A manifestação do petista reforça a leitura de que Lula quer se vingar da população do DF por não ter mais o apoio de outras eleições. Pesquisa Datafolha divulgada em setembro mostrou que 51% dos eleitores do Distrito Federal avaliam negativamente o governo Lula, enquanto 26% aprovam a gestão.
Se o objetivo do comício em Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, era alavancar o candidato do PT ao Buriti, o ex-distrital Leandro Grass, e os demais aliados que concorrem aos outros cargos, Lula fez questão de colocar mais lenha na fogueira.
Ao declarar que “não vai dar dinheiro para o BRB”, Lula deixou evidente, na avaliação deste colunista, a sua falta de compromisso com a população do DF. O Banco de Brasília tem papel relevante no financiamento de empresas, no crédito e na execução de programas do governo distrital.
O presidente também aproveitou o palanque para responsabilizar o ex-governador Ibaneis Rocha e o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, pela crise do BRB. Lula afirmou que a ligação entre os dois teria provocado o problema e disse que o BRB comprou títulos que não existiam. Essas são acusações feitas pelo próprio presidente durante o comício.
Lula sabe da importância do BRB para o Distrito Federal. Quando o PT passou pelo Palácio do Buriti, o banco foi utilizado para beneficiar interesses partidários e pessoais de suas lideranças. Naquela época, a instituição esteve à beira de ser privatizada devido à falta de capacidade e competência dos “companheiros” que ficaram à frente do banco público.
Embora o petista encha a boca para dizer que não vai dar dinheiro para o banco, é preciso separar o discurso político da operação financeira que está em discussão. O GDF busca um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com a União sendo chamada a oferecer garantia, mas a operação enfrenta entraves e está sob análise do Supremo Tribunal Federal.
Em maio, o STF chegou a homologar um acordo entre União, Distrito Federal, Banco Central e BRB para viabilizar uma operação de crédito destinada ao reforço financeiro do banco. A solução previa uma estrutura com participação do sistema financeiro e contragarantias do DF, sem aval da União naquele desenho inicial.
A história de que o governo federal simplesmente vai “dar dinheiro para o banco”, portanto, não traduz toda a operação. O que está em discussão é uma estrutura de crédito e garantias para reforçar o BRB, enquanto o banco e o GDF enfrentam uma crise provocada pelas operações envolvendo o Banco Master.
Ao tentar estimular a plateia a ficar contra a governadora Celina Leão (PP), que concorre à reeleição, o tiro do petista saiu pela culatra. As suas declarações colocaram o BRB no centro da disputa política do Distrito Federal e transformaram uma discussão financeira em mais um capítulo da guerra eleitoral.
Não é de hoje que Lula enfrenta resistência política no Distrito Federal. E, pelo visto, o petista escolheu um momento particularmente delicado para entrar de cabeça na disputa pelo BRB. Com a rejeição ao governo federal em patamar elevado no DF, qualquer declaração do presidente sobre o banco tende a produzir forte repercussão entre os eleitores brasilienses.
Se a intenção de Lula era transformar o BRB em munição contra Celina Leão, conseguiu colocar o banco no centro do debate. Agora, a disputa política está lançada e o eleitor do DF terá a palavra nas urnas.
Quando as urnas se abrirem, saberemos o tamanho da reação do povo do DF às declarações de Lula sobre o BRB.
Foto: Reprodução/Google Imagens
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