• 23 de abril de 2026

Suspiros Perdidos

Por Pitter Lucena

Houve, de fato, um império de papel instalado nas esquinas. No Brasil, os romances sentimentais de banca ganharam força a partir do fim dos anos 1970, vendidos a preços populares em bancas de jornal e voltados sobretudo a um público leitor feminino; essa tradição dialogava com a trajetória internacional da Harlequin, editora fundada em 1949 no Canadá, que transformou o romance seriado num fenômeno de circulação massiva. Por aqui, essas coleções ocuparam por décadas um lugar muito próprio no imaginário urbano: o da literatura portátil, acessível, íntima e ritualística, comprada no caminho de volta para casa, lida no ônibus, no quarto, na fila, na cozinha, na pausa possível do dia.

Mas dizer isso assim, em linguagem de arquivo, ainda é pouco. Porque os romances de banca não viveram apenas nas estatísticas de venda, nem no catálogo das editoras, nem no rodapé discreto da história literária. Eles viveram onde as coisas realmente vivem: na mão, no bolso, no travesseiro, no calor do rosto de quem lia, no suspiro demorado de quem fechava o livro e ficava alguns segundos olhando para o teto, como se o mundo real precisasse de um intervalo antes de recomeçar. Como é bom lembrar dos romances de banca de jornal.

Não apenas lembrar dos títulos, das coleções, dos nomes repetidos como parentes íntimos — Júlia, Bianca, Sabrina —, mas lembrar do ambiente inteiro que os cercava, daquela geografia sentimental feita de sol, poeira, tinta, desejo e repetição. Porque a banca, naquele tempo, não era somente um ponto de venda. Era uma pequena capela a céu aberto, um confessionário de esquina, um pedaço de cidade onde as almas iam comprar não um livro, mas a permissão de sonhar em turnos. Bastava passar diante dela.

O jornaleiro, quase sempre, parecia fazer parte da própria arquitetura: cigarro no canto da boca, toalhinha no ombro, dedos manchados de tinta, olhos treinados para identificar, sem que ninguém precisasse pedir, o tipo exato de leitura que cada coração vinha buscar. Os jornais se abriam como asas. As revistas de culinária, de bordado, de celebridade, de novela, de palavras cruzadas, tudo isso vivia em torno daquelas pequenas colunas de romance, onde as capas brilhavam sob o sol como relicários profanos.

E lá estavam elas. Enfileiradas. Coloridas. Suspensas na vitrine de acrílico ou empilhadas com aquela desordem metódica das coisas muito manuseadas. Júlia, Bianca e Sabrina. As três irmãs da paixão. As três filhas oficiais de uma república sentimental onde a realidade pedia licença à fantasia para continuar existindo.

Havia nelas um quê de feitiço barato, sim — mas feitiço nenhum deixa de ser poderoso apenas porque custa pouco. Ao contrário: às vezes o milagre mais eficaz é justamente aquele que cabe no orçamento apertado, no troco contado, no fundo da bolsa, no vão da rotina. Os romances de banca eram isso: paraísos impressos em papel de baixa gramatura e alta voltagem emocional. Livrinhos leves, quase frágeis, mas capazes de mover continentes inteiros dentro de quem os lia. Bianca era a mais delicada das três.

Não digo delicada como quem a diminui, mas como quem reconhece nela uma liturgia própria do afeto. Bianca parecia sempre vir vestida de rendas invisíveis. Tinha luz de fim de tarde. Tinha cheiro de roupa passada e flor guardada dentro da Bíblia. Seus romances não corriam: suspiravam. Suas heroínas amavam com uma espécie de lentidão devota, como se o amor fosse uma carta escrita à mão e o beijo, quando finalmente viesse, tivesse de ser antecedido por chuva, por silêncio, por mal-entendidos elegantes, por algum tipo de espera que purificasse a carne antes do encontro.

Quem lia Bianca queria mais do que romance: queria solenidade. Queria o amor como promessa escrita com tinta azul, cheia de reticências, de hesitação, de castidade tremendo na boca. Era o território das moças que ainda acreditavam que alguém podia chegar à janela com serenata, ou ao menos com um gesto que se parecesse com isso. Era o amor dos suspiros perdidos, sim, mas perdidos como quem planta: lançados ao ar para ver se algum deles, por bondade do destino, caía em chão fértil. Júlia, não. Júlia era outra estação.

Júlia entrava na banca como entra um perfume numa sala onde o silêncio estava confortável demais. Era fogo em papel. Era unha pintada, decote moral, passo firme. Suas páginas tinham cheiro de perfume e perigo, de elevador social e fazenda com cavalo negro, de escritório envidraçado e praia deserta. Suas heroínas já não pediam licença ao mundo — enfrentavam-no. Eram moças modernas, de saias curtas, inteligência afiada e olhos treinados para desafiar convenções, patrões, herdeiros, artistas atormentados e fazendeiros musculosos de camisa aberta até o umbigo.

Em Júlia, o amor não vinha de mansinho. Entrava derrubando cadeiras. Tinha atrito. Tinha eletricidade. Tinha frases ditas entre dentes. O beijo, quando chegava, não parecia bênção: parecia incêndio. O leitor sentia o calor subindo pelas letras, como se cada verbo tivesse sido escrito depois de atravessar um corpo em brasas. Júlia era o amor como duelo, como campo minado, como risco escolhido de olhos abertos. E então havia Sabrina.

Sabrina não era coleção: era um estado emocional. Rainha absoluta do drama, patrona das lágrimas bem aplicadas, imperatriz das reviravoltas. Se Bianca suspirava e Júlia ardia, Sabrina sofria — e sofria bonito. Suas heroínas amavam como quem atravessa desertos de salto alto. Choravam na chuva. Desmaiavam em festas. Eram mal compreendidas, trocadas, humilhadas, confundidas, exiladas, ameaçadas por cartas anônimas, olhares tortos, parentes interesseiros e rivais de batom impecável. E, mesmo assim, seguiam adiante como se o coração fosse uma charrete puxada por cavalos nervosos.

Sempre havia uma vingança no horizonte. Um mal-entendido monumental. Uma revelação no último capítulo. Um homem orgulhoso demais para dizer “eu te amo” até a página certa. E o leitor, claro, se entregava. Porque Sabrina levava o melodrama à sua potência máxima, e isso não era defeito: era a própria delícia. Havia um prazer imenso em sofrer por procuração quando a vida real já machucava sem trilha sonora. As bancas, por isso mesmo, eram templos desse culto ao amor.

As mulheres compravam seus exemplares como quem compra um segredo. Às vezes escondiam o romance entre uma revista de culinária e um jornal esportivo. Às vezes pediam em voz baixa. Às vezes o jornaleiro já separava o novo volume sabendo exatamente para quem era. Havia uma cumplicidade sem nome nesse comércio miúdo de emoções impressas. Um olhar cúmplice, um meio sorriso, o tilintar das moedas no balcão, e estava feito: mais uma paixão de bolso seguia para casa. E como essas leituras viajavam.

Iam no ônibus, sacolejando entre cotovelos, sacolas de feira e motoristas impacientes. Iam na fila do INSS, no corredor de hospital, na cozinha entre uma panela e outra, no quarto com ventilador barulhento, debaixo de lâmpadas amarelas, em camas estreitas, em salas de costura, em balcões de loja, em mesas de datilografia. Os romances de banca eram cinema portátil para mulheres que nem sempre tinham o luxo do descanso, mas ainda assim roubavam ao dia alguns minutos para si.

E não se trata aqui de desmerecer essa leitura como fuga menor. Há fugas que são formas profundas de resistência. Há leituras que sustentam vidas inteiras sem jamais receber a medalha crítica que mereciam. O romance popular, vendido em banca, barato, seriado, foi para muitas mulheres uma educação sentimental, um espaço imaginário de autonomia, uma forma de habitar desejos, sofrimentos e fantasias que o cotidiano frequentemente esmagava com seu peso repetitivo. Pesquisas acadêmicas sobre romances sentimentais no Brasil apontam justamente para essas comunidades de leitura femininas, em que o consumo desses livros articulava afeto, identificação, sociabilidade e imaginação em larga escala. Nas páginas baratas havia luxo.

Não o luxo dourado das joias e dos salões, embora eles aparecessem bastante. Havia outro luxo, mais secreto e talvez mais valioso: o luxo de viver mil vidas sem sair do lugar. O luxo de se apaixonar com segurança, de sofrer com método, de sonhar com cenário. O luxo de experimentar, em capítulos curtos e finais prometidos, uma emoção inteira, redonda, satisfatória, num mundo em que quase nada se resolvia com tanta elegância.

O jornaleiro, nesse teatro de papel, era quase um sacerdote laico. Não fazia sermão. Não comentava demais. Não julgava. Às vezes trocava um volume usado por outro novo. Às vezes guardava um exemplar disputado. Às vezes apenas via. E ver, em muitos casos, já era um tipo de acolhimento. Ele testemunhava discretamente a passagem da fantasia pela vida comum. As bancas eram também confessionários da imaginação.

Quantos amores não começaram ali, entre uma espiada tímida na capa de Júlia e o aceno de despedida de quem prometia voltar no sábado seguinte? Quantas adolescentes não aprenderam, antes de viver, o vocabulário da paixão? Quantas mulheres não descobriram, nessas páginas, que o desejo também podia ter protagonismo feminino, mesmo quando moldado pelos clichês de sua época? Quantos diálogos não nasceram ao redor desses livros, quantas trocas, quantas recomendações, quantas amizades de fila, de ônibus, de vizinhança?

O romance de banca, em seu formato modesto, criou comunidade. E talvez tenha criado também uma espécie de educação do coração. Uma pedagogia do excesso. Ensinava a esperar, a sofrer, a fantasiar, a idealizar, a desconfiar, a se render. Ensinava, sobretudo, que amar nunca foi um sentimento limpo, organizado e silencioso. Amar dá trabalho. Dá mal-entendido. Dá imaginação. Dá febre. Dá ridículo. E aquelas mulheres de papel, por mais estereotipadas que fossem em muitos casos, sabiam disso com uma intensidade quase operística.

O vento das cidades parecia carregar as páginas dessas histórias como folhas secas de um outono sentimental. Havia alguma coisa de sazonal e eterno nisso. As bancas envelheciam, os jornaleiros sumiam, os bairros mudavam de rosto, os pontos de ônibus trocavam de lugar, as moedas mudavam de nome, mas ainda assim alguma coisa daquele perfume continuava no ar.

Hoje, vivemos entre telas e algoritmos. O amor virou notificação. O beijo virou emoji. O sofrimento virou status temporário. As novas Júlias se espalham por séries em streaming. As Biancas talvez tenham migrado para algum romance de catálogo digital de capa limpa e tipografia elegante. As Sabrinas renascem, sem nenhum pudor, em novelas turcas, doramas coreanos e produções que continuam entendendo uma coisa muito simples: o ser humano não se cura do melodrama, apenas muda de embalagem.

Mas nenhuma dessas reinvenções tem exatamente o mesmo sabor. Falta o papel. Falta o peso leve do livrinho na mão. Falta o sol batendo na capa brilhante. Falta o chiado do rádio AM no fundo da banca. Falta a pequena vergonha de comprar um segredo. Falta o gesto de virar a última página e ficar alguns segundos olhando o vazio, como se o coração precisasse reaprender a entrar no próprio peito. Ah, se fosse possível voltar.

Não para morar lá de novo — ninguém volta inteiro a lugar algum —, mas para visitar aquela banca da esquina, sentir o calor do metal da banca ao meio-dia, ver as capas pendendo um pouco ao vento, ouvir o jornaleiro chamando pelo nome quem passava, escolher entre o amor impossível e o amor ardente, entre a dor elegante e a catástrofe gloriosa, entre o suspiro e o incêndio. Era ali que moravam os suspiros perdidos.

Não apenas os das mocinhas de papel, mas os nossos próprios. Suspiros de gente comum, de bairro, de ônibus, de fila, de janela. Suspiros embalados pelo desejo muito antigo de viver uma história bonita, mesmo que só até a última página. Mesmo que só na companhia de uma heroína que chora melhor do que nós e de um homem de maxilar duro que, no fundo, vai acabar amando direito.

Porque o que aquelas pequenas obras talvez ensinassem — às vezes de maneira ingênua, às vezes exagerada, às vezes kitsch, mas quase sempre eficaz — é que amar é uma arte de se desorganizar com beleza. Amar de verdade, intensamente, mesmo que doa, continua sendo o maior de todos os romances.

E quem nunca se perdeu entre as páginas de um amor inventado talvez não saiba plenamente o que é sentir o coração bater fora do compasso por uma coisa que, embora não exista, toca exatamente onde a vida existe mais.

Sim, os romances de banca se foram — ou quase. Encolheram, mudaram de suporte, saíram da esquina, foram para sebos, coleções, sites, caixas guardadas no alto do armário. Mas não morreram. Continuam sussurrando, como vento em papel amarelado, como perfume antigo preso numa dobra de livro, como a memória de uma banca que já não está ali, mas ainda ilumina a esquina por dentro.

E se a gente prestar bastante atenção, ainda pode ouvir, vindo de muito longe, a voz macia dessas musas de papelão dizendo, com toda a solenidade possível para quem conhece a alma humana por dentro: Acredite. O amor ainda vale a leitura.

Arte: Divulgação


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