Por Pitter Lucena*
Antes que o mundo se ajoelhasse diante das selfies, dos filtros milagrosos e da tirania da imagem perfeita, houve um tempo em que fotografar era uma espécie de oração. Não se apontava uma câmera para qualquer coisa. Escolhia-se o instante com cuidado, quase com medo. Havia um respeito silencioso pela luz, pelo enquadramento, pela pose possível, pelo milagre incerto de transformar um segundo em papel. Era o tempo da Câmera LOVE, essa pequena caixa de plástico que carregava, dentro de sua simplicidade, uma promessa grandiosa: segurar o tempo pela barra da camisa antes que ele dobrasse a esquina.
A LOVE não era apenas uma câmera barata. Era uma aventura. Cabia na palma da mão, mas trazia dentro de si uma carga de expectativa que hoje nenhum aparelho sofisticado consegue repetir. Com ela, qualquer pessoa se sentia fotógrafa — ainda que o resultado, muitas vezes, provasse o contrário. E talvez estivesse justamente aí a sua graça. A LOVE não fazia reverência à perfeição; fazia reverência ao acontecimento. Ela não queria fabricar beleza impecável. Queria capturar vida. E vida, como se sabe, quase sempre sai torta.
Naquele tempo, cada clique custava coragem. Não havia tela para conferir se todos estavam sorrindo. Não havia botão de apagar. Não havia segunda chance infinita, nem filtro para esconder o susto, nem inteligência artificial para corrigir o destino. Apertava-se o botão e pronto: a imagem desaparecia no mistério do filme, guardada no escuro como semente. A fotografia só nasceria dias depois, quando já não havia mais nada a fazer — nem corrigir, nem repetir, nem salvar do erro.
Comprava-se a câmera inteira como quem compra um bilhete de loteria visual. Trinta poses. Trinta apostas contra o esquecimento. Trinta pequenas portas abertas para o futuro. Cada foto era uma decisão importante: valia a pena gastar uma pose com o bolo ainda inteiro? Com o primo fazendo careta? Com a turma diante do ônibus da excursão? Com o pôr do sol que talvez estourasse em clarão branco? O contador da câmera era implacável. A cada clique, o estoque de eternidade diminuía.
E, por isso, a LOVE ensinava economia afetiva. Ensinava a escolher. Hoje acumulamos imagens demais e lembramos de menos. Naquele tempo, como as poses eram poucas, a memória precisava ter critério. Fotografar era dizer: isto merece ficar. Isto não pode se perder. Este abraço, este rosto, esta mesa, esta viagem, esta festa, esta tarde precisam atravessar o tempo.
A LOVE aparecia nas festas como uma convidada especial. Nascia de dentro de uma bolsa, de uma gaveta, de uma sacola de farmácia, e logo virava centro das atenções. Alguém anunciava: “Trouxe a câmera!” E a frase tinha poder. Os corpos se organizavam. Os cabelos eram ajeitados. As crianças eram chamadas. Os adultos endireitavam a postura. A avó sentava no meio. O aniversariante segurava a faca diante do bolo. Um tio gritava do fundo: “Espera eu!” E, antes que todo mundo estivesse realmente pronto, o clique acontecia. Era assim que a vida ficava registrada: meio pronta, meio distraída, inteiramente humana.
A câmera passava de mão em mão como um pequeno cetro democrático. “Agora uma comigo.” “Mais para a esquerda.” “Chega para perto.” “Não pisca.” “O flash não pegou.” E lá se iam as poses, uma após outra, consumidas em riso, vaidade e improviso. Quando o contador chegava ao fim, vinha um silêncio breve. Não era tristeza completa. Era uma espécie de luto bonito. Acabavam as fotos, mas ficava a sensação de que algo havia sido vivido o suficiente para merecer lembrança. Depois vinha a segunda parte do rito: levar a câmera para revelar.
A loja fotográfica era um santuário moderno. Tinha cheiro de química, papel, balcão encerado e segredo. Lá dentro, pessoas comuns entregavam suas pequenas cápsulas de tempo a funcionários que pareciam guardiões do invisível. A LOVE era deixada sobre o balcão como quem entrega uma carta fechada ao destino. O atendente anotava o nome, prometia o prazo e dizia, com serenidade cruel: “Três dias úteis.” Três dias.
Hoje parece pouco. Naquele tempo, era uma travessia. Três dias para imaginar se a foto da formatura saiu boa. Três dias para temer que alguém tenha fechado os olhos. Três dias para suspeitar que o dedo apareceu diante da lente. Três dias para torcer para o flash ter funcionado. Três dias em que a memória ficava suspensa, dormindo no escuro, mergulhada em banhos misteriosos de revelador, fixador, emulsão — palavras que pareciam pertencer a uma alquimia secreta. E então chegava o dia do envelope.
Poucas emoções se comparavam ao instante de buscar as fotografias reveladas. O envelope pardo vinha levemente estufado, discreto, quase sem aparência de milagre. Mas dentro dele estava o passado recém-nascido. Abria-se com cuidado. Primeiro vinha o cheiro do papel fotográfico. Depois o brilho das imagens. E então a verdade aparecia, impiedosa e encantadora.
Olhos fechados. Rostos cortados. Cabeças pela metade. Dedos invadindo a lente. Crianças borradas. Tios com expressão de susto. Mesas inclinadas. Sombras indecifráveis. Noites que viraram breu. Flashes que transformaram olhos em pequenos faróis vermelhos. Uma coleção de desastres tão sinceros que mereciam moldura. Mas no meio daquelas ruínas sempre havia uma foto boa. Uma só, às vezes. E bastava.
Era aquela em que o sorriso acontecia no instante exato. A criança olhava para a câmera sem saber que estava sendo eterna. A avó aparecia com a mão pousada sobre o colo. O bolo surgia inteiro. O mar, por milagre, não ficava branco demais. O abraço cabia dentro do quadro. Essa foto era separada das outras com respeito. Ganhava lugar de honra no álbum de capa vermelha, entre páginas transparentes que cheiravam a plástico envelhecido e domingo antigo.
Os álbuns de família eram bibliotecas silenciosas da vida. Cada página guardava uma era. O batizado, o churrasco na laje, a excursão da escola, o casamento do tio distante, o cachorro que já partiu, a viagem para a praia onde ninguém sabia posar, a formatura com vestido xadrez, o aniversário com refrigerante quente e balões murchando no canto da sala. Não eram fotos perfeitas. Eram melhores do que isso: eram verdadeiras.
A LOVE tinha personalidade. Era temperamental, imprevisível, limitada. Seu flash, quando existia, parecia um fósforo tentando iluminar o universo. Fotografar à noite era ato de fé redobrada. O resultado podia ser apenas um rosto flutuando no escuro, uma mesa sem gente, uma sombra parecida com fantasma. Mesmo assim, ninguém desistia. A frase “dessa vez sai boa” era mais forte do que qualquer fracasso anterior.
E talvez essa fosse a grande beleza da Câmera LOVE: ela não prometia controle. Prometia surpresa. O mundo entrava pela lente sem pedir licença e saía, dias depois, com suas falhas intactas. A câmera não corrigia a realidade. Não alisava rostos. Não apagava rugas. Não arrumava cabelos. Não clareava dentes. Não escolhia o melhor ângulo. Ela apenas registrava — com sua pobreza técnica e sua riqueza emocional — a vida como ela conseguia caber dentro de um quadrado.
Naquele tempo, fotografar era prova de presença. A gente tirava foto para lembrar, não para exibir. A imagem não nascia para receber aplausos imediatos. Nascia para dormir no álbum, esperando anos até ser redescoberta por acaso numa tarde qualquer. E, quando isso acontecia, ela cumpria sua missão: devolvia a casa inteira. O cheiro do bolo. O barulho dos copos. A voz de alguém chamando da cozinha. O ventilador girando. A criança correndo. O riso antes do clique.
Hoje, abrimos o celular e encontramos centenas de fotos quase iguais. Nítidas, corrigidas, luminosas, repetidas até a exaustão. Há beleza nessa facilidade, sem dúvida. Mas falta alguma coisa. Falta o mistério. Falta a espera. Falta o erro que humaniza. Falta a gargalhada coletiva diante da foto torta. Falta a emoção de descobrir, dias depois, que um instante sobreviveu por acaso.
A LOVE nos ensinou que o acaso também é autor. Que uma fotografia tremida pode guardar mais verdade do que uma imagem impecável. Que um rosto cortado pela metade ainda pode contar uma história inteira. Que a imperfeição, quando nasce da vida real, tem uma beleza que nenhum filtro alcança.
Por isso, ela continua viva. Não nas vitrines, não nas mãos apressadas, não nas tecnologias de ponta. Continua viva nos álbuns esquecidos no fundo dos armários, nas caixas de sapato, nos envelopes pardos com negativos, nas gavetas onde as famílias guardam aquilo que não sabem jogar fora. Continua viva quando alguém encontra uma foto antiga e diz: “Olha isso!” E todos se aproximam. E começam as risadas. E depois vem o silêncio. Porque, no fundo da fotografia, há sempre alguém que já foi embora, uma casa que não existe mais, uma tarde que nunca se repetiu.
A Câmera LOVE era pequena, frágil, imperfeita. Mas talvez por isso tenha sido tão grande. Ela nos ensinou que a memória não precisa ser exata para ser verdadeira. Que o tempo, quando revelado em papel brilhante, aceita vir borrado. Que a vida não precisa estar em foco para merecer amor.
E foi assim que aquela caixinha de plástico, tão simples e despretensiosa, salvou pedaços inteiros de mundo. Salvou aniversários, excursões, casamentos, domingos, praias, quintais, olhares distraídos e sorrisos sem ensaio. Salvou o que podia. Salvou como podia. E salvou bonito.
Porque fotografar com a LOVE era mais do que registrar o mundo. Era confiar que, mesmo torta, mesmo escura, mesmo fora de foco, a vida ainda podia ser linda. E era. Linda demais.
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