• 30 de agosto de 2026

Setor produtivo reage à redução da jornada e alerta: “A conta para quem produz já está alta demais”

A proposta de redução da jornada de trabalho acendeu um sinal de alerta entre representantes do setor produtivo brasileiro. Em meio a um cenário de empresas endividadas, crédito caro, juros elevados e incertezas sobre a carga tributária, empresários defendem que uma mudança profunda nas relações trabalhistas não pode ser aprovada sem amplo debate e estudos sobre seus impactos.

A preocupação central é direta: reduzir a jornada sem avaliar os efeitos sobre produtividade, folha de pagamento e custos operacionais pode aumentar a pressão sobre empresas e, no limite, afetar investimentos e geração de empregos.

Para representantes empresariais, o debate ganha ainda mais importância diante do calendário eleitoral.

“Mudar as regras do trabalho às vésperas das eleições? Agora não.”

A frase resume o posicionamento de setores que defendem previsibilidade, segurança jurídica e estabilidade econômica antes da criação de novas obrigações para quem produz.

A avaliação é que o Brasil já convive com uma combinação de fatores que encarece a atividade empresarial: elevada carga tributária, burocracia, encargos trabalhistas, crédito restrito e custos operacionais crescentes.

E, segundo o setor produtivo, a margem para novos impactos está cada vez menor.

Sem confiança, o investimento procura outro destino

Um dos principais argumentos levantados pelos empresários é a necessidade de recuperar a confiança dos investidores.

Em 2024, a Bolsa brasileira registrou retirada líquida de R$ 32,1 bilhões em capital estrangeiro, movimento frequentemente citado por críticos do ambiente econômico como um sinal de alerta sobre a competitividade do país.

A preocupação vai além do mercado financeiro.

Empresas brasileiras também têm buscado alternativas para expandir operações no exterior ou direcionar novos investimentos para países considerados mais competitivos.

Entre os destinos frequentemente citados pelo setor está o Paraguai, especialmente por causa do regime de incentivos da Lei de Maquila. Estados Unidos e países europeus também aparecem entre mercados avaliados por empresários interessados em internacionalizar operações.

Representantes do setor afirmam que 23 empresas brasileiras teriam migrado para o Paraguai, atraídas, entre outros fatores, pelas condições oferecidas pelo país. O número, no entanto, não foi localizado em fonte oficial durante a apuração e deve ser tratado como informação atribuída ao setor empresarial, e não como dado consolidado.

Mas o alerta permanece.

Empresas e investidores escolhem onde colocar seu dinheiro. E, quando a confiança diminui, o capital simplesmente procura outro endereço.

Cada decisão de abrir uma unidade no exterior, transferir parte de uma operação ou direcionar novos investimentos para outro país envolve fatores como tributação, custo da mão de obra, segurança jurídica e perspectivas de crescimento.

Reforma tributária amplia incertezas

A preocupação empresarial também alcança a implementação da reforma tributária.

Apresentada como uma mudança capaz de simplificar o complexo sistema brasileiro, a nova estrutura prevê a substituição gradual de tributos pelo modelo de IVA dual, composto pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).

A referência inicial para a alíquota-padrão ficou em 26,5%.

Já uma estimativa divulgada em agosto de 2026 pelo Comitê Gestor do IBS apontou 27,91% para projeções de arrecadação em 2027.

O percentual não representa uma nova alíquota definitiva, mas reacendeu o debate sobre o tamanho da futura carga tributária.

Para empresários, o problema não está apenas no percentual, mas na falta de previsibilidade.

Quem empreende precisa saber quanto vai pagar para decidir quanto investir, contratar e crescer.

Quando as regras permanecem cercadas de dúvidas, decisões importantes acabam sendo adiadas.

Famílias endividadas e consumo sob pressão

O cenário também preocupa pelo lado do consumidor.

Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontam que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2026, o maior nível da série histórica pelo sexto mês consecutivo.

Além disso, 29,5% da renda das famílias estava comprometida com dívidas.

O reflexo chega diretamente ao comércio e aos serviços.

Com menos dinheiro disponível no orçamento, famílias reduzem o consumo. Para empresários, isso significa enfrentar uma possível queda nas vendas justamente em um momento de custos elevados e crédito caro.

Do outro lado do balcão, a situação das empresas também chama atenção.

Dados da Serasa Experian mostram que o número de CNPJs inadimplentes ultrapassou 9,1 milhões em junho de 2026, o maior nível da série histórica.

As dívidas acumuladas chegaram a R$ 232,9 bilhões.

Recuperações judiciais disparam entre pequenos negócios

A pressão econômica também aparece no crescimento dos pedidos de recuperação judicial.

O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, alta de 6,2% em relação ao fim de 2025, segundo levantamento do Monitor RGF-BizDoc.

O número chegou a 6.513 empresas em maio, antes de registrar recuo em junho.

Os dados revelam uma pressão especialmente forte sobre os pequenos negócios.

Desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial praticamente triplicou, enquanto pequenas e médias empresas também registraram crescimento expressivo.

Para o setor produtivo, os números ajudam a dimensionar o momento econômico.

Antes de discutir novos custos, é preciso olhar para a situação de quem já está lutando para manter as portas abertas.

Varejo denuncia concorrência desigual

Outro ponto levantado pelo setor produtivo é a concorrência com empresas estrangeiras.

O debate ganhou força com a tributação das compras internacionais de baixo valor, popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.

Representantes do comércio argumentam que existe uma diferença significativa entre a tributação incidente sobre produtos importados adquiridos diretamente pelo consumidor e a carga suportada pelo varejo nacional.

Enquanto compras internacionais podem contar com tributação federal de 20% em determinadas faixas, empresas brasileiras enfrentam uma carga tributária total que, dependendo do produto, atividade e regime tributário, pode alcançar 40% ou até 45%, segundo representantes do setor.

A comparação não se refere à cobrança de um único imposto, mas ao conjunto de custos tributários incidentes sobre a produção e comercialização no mercado interno.

Para pequenos e médios empresários, essa diferença cria uma competição considerada desigual.

“A conta já está alta demais”

É nesse ambiente que a proposta de redução da jornada de trabalho encontra resistência entre representantes do empresariado.

A crítica não está necessariamente no debate sobre qualidade de vida ou modernização das relações de trabalho.

O ponto levantado pelo setor é outro: quem vai pagar a conta e quais serão os efeitos da mudança?

Empresários temem impactos sobre folha de pagamento, necessidade de novas contratações, produtividade e organização das empresas.

Em setores que funcionam continuamente — como comércio, indústria, serviços, saúde e logística — uma redução da jornada pode exigir reorganização completa das escalas e aumento de custos.

Por isso, o setor defende que uma mudança dessa dimensão precisa ser precedida de estudos técnicos e diálogo.

Setor produtivo pede previsibilidade

A mensagem dos empresários é clara: o Brasil precisa discutir o futuro das relações de trabalho, mas não pode ignorar a realidade econômica de quem gera empregos.

Empresas buscando oportunidades fora do país, famílias endividadas, milhões de CNPJs inadimplentes, crédito caro, juros elevados e incertezas tributárias formam um cenário que exige cautela.

Para o setor produtivo, criar novas obrigações sem medir as consequências pode produzir o efeito contrário ao desejado.

Em vez de ampliar empregos, empresas podem reduzir contratações.

Em vez de estimular investimentos, projetos podem ser adiados.

E, em vez de fortalecer a economia brasileira, novos empreendimentos podem buscar mercados considerados mais competitivos.

A discussão sobre a redução da jornada, portanto, vai além das horas trabalhadas.

É um debate sobre produtividade, competitividade, emprego e o ambiente que o Brasil deseja oferecer para quem investe, empreende e produz.

A pergunta que começa a ganhar força no setor empresarial é simples e direta:

Antes de aumentar a conta de quem produz, o país está disposto a ouvir quem paga essa conta todos os dias?

Foto: Reprodução/Google Imagens


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