Bodó: A Pequena Missa da Farinha e do Fogo

*Por Pitter Lucena

Era do tempo do ronca, sim senhor — tempo em que a manhã não começava no despertador, mas no peito do galo, na friagem do orvalho e no rumor do igarapé acordando por baixo da neblina. Nas beiras de rio, nos seringais cheirando a leite ferido de seringa, nas colônias de barro batido por pés descalços, havia um rito que não precisava de livro, nem de receita escrita, nem de medida exata. No centro desse rito, humilde e soberano, reinava o bodó: bolinho simples, parente caboclo do bolinho de chuva, feito de farinha, fermento, água morna, sal, cuidado e fogo.

O bolinho de chuva, como ficou mais conhecido nas cidades, é tradicional no Brasil e em Portugal, geralmente preparado com farinha de trigo, ovos, leite e fermento, frito em óleo quente e muitas vezes polvilhado com açúcar e canela. Algumas referências apontam parentesco com doces portugueses fritos, como os sonhos de Natal, embora cada região tenha dado ao bolinho seus nomes, modos e memórias.

Mas o bodó do tempo do ronca não vinha vestido de açúcar e canela, nem posava em prato de porcelana para fotografia bonita. Ele nascia no rumor da lenha, na frigideira escurecida de uso, na bacia de esmalte lascada, no gesto antigo de quem aprendeu a cozinhar olhando. Era comida de começo de dia, sustança de menino, merenda de roça, café da manhã de casa pobre que sabia transformar pouco em fartura.

Bodó. Palavra redonda, de vogais quentes, dessas que parecem crescer dentro da boca. Não era só bolinho. Era senha. Era abertura da manhã. Era ponte entre a fome e o afeto. Na mesa simples, tinha a dignidade dos pequenos milagres: não resolvia a vida, mas fazia a vida suportar melhor o peso do dia.

A receita, se é que se pode chamar assim, passava de mão em mão como segredo de família. Farinha peneirada no tato, fermento medido no olho, água morna “de conversa”, sal provado na ponta do dedo. E o ingrediente invisível, que não se vendia em venda nenhuma: cuidado. A massa era mexida devagar, com giro largo e paciência, até chegar ao ponto que só a experiência reconhece — nem mole demais, nem dura demais; uma firmeza que ainda sabia ceder.

Enquanto a massa descansava, a casa acordava. O pai afiava o facão na pedra. A mãe soprava a cinza para chamar a chama. O vento brincava nos varais. O rádio, quando havia, soltava um baião falhado pelas frestas. E a frigideira preta, senhora de tantas manhãs, recebia o óleo como quem recebe um destino. Então vinha o primeiro chiado. Psssss.

Esse som era mais que som. Era anúncio. Era sino de cozinha. Era a assinatura do que presta. As colheradas de massa caíam no óleo quente como pequenas luas brancas e logo começavam a girar, inflar, dourar. A cozinheira virava cada bodó com o dorso da colher, sem ferir, sem pressa, como quem ajeita criança dormindo. O tabuleiro azul recebia os recém-nascidos sobre papel pardo, que sugava o excesso e devolvia perfume.

Do lado de fora, as crianças farejavam a alegria. Ficavam em pontas de pé, olhos grandes, nariz em flor, esperando o primeiro. E o primeiro bodó era título de nobreza. Queimava a língua, sim. Mas felicidade boa quase sempre chega quente demais. O “hummm” que vinha depois não tinha tradução: era lembrança futura se formando dentro do corpo.

O bodó alimentava de farinha, mas também de história. A cozinha virava terreiro de memória. Enquanto a massa dourava, vinham as narrativas: o boto de chapéu, a onça com voz de gente, o Caboclo d’Água vigiando remanso, a cobra que atravessou a estrada com majestade de rainha. Cada fornada era capítulo. Cada história vinha servida com cheiro de óleo, café e susto.

Havia uma geografia do perfume. O cheiro saía pela janela, descia a ribanceira, subia o coqueiro, batia na cerca e chamava vizinho. Sempre aparecia alguém dizendo que “só passou para ver se estava tudo bem”. Mentira bonita. Era o bodó pescando gente pelo nariz. E sempre cabia mais um. Comer junto, naquele tempo, era uma forma de assinar pertencimento.

Também havia ciência por trás do encanto. Óleo novo demais era vaidoso. Fogo alto demais era pecado. Massa apressada não prestava. Bodó não esperava ninguém: era comida de agora. Depois virava lembrança. E lembrança, embora alimente, não enche barriga.

Quando chegava o café preto, a cerimônia se completava. As canecas de ágata alinhavam suas cicatrizes brancas, o café caía grosso e escuro, e o bodó mergulhava nele como quem recebe bênção. “Melhora qualquer tristeza”, dizia a avó. E melhorava. Porque há tristezas que não pedem discurso; pedem café quente e um bolinho recém-saído do fogo.

Mais tarde, nas cidades, chamaram de bolinho de chuva. Vestiram de açúcar, canela, prato fundo e guardanapo. Ficou elegante. Ficou correto. Mas o bodó verdadeiro continuou morando onde sempre morou: na memória de quem o comeu de pé, soprando, rindo, queimando a língua, com o quintal ainda molhado de orvalho.

Se alguém quiser reencontrá-lo, não procure primeiro a receita. Procure o tempo. Desacelere a manhã. Pegue a frigideira mais antiga. Chame alguém que saiba contar história sem olhar para celular. Misture a farinha com cuidado. Espere o óleo tremer. E, quando vier o primeiro psssss, sorria antes mesmo de provar.

Porque o bodó nunca foi apenas comida. Foi uma pequena missa de farinha e fogo. Foi a prova de que o essencial cabe na palma da mão. Foi a teologia simples das casas pobres: quando há partilha, café e conversa, a vida ainda tem jeito.

E enquanto houver alguém que, ao ouvir o chiado do óleo, sinta o coração voltar para uma cozinha antiga, o tempo do ronca continuará vivo — por baixo do asfalto, dentro da memória, dourando devagar.

Foto: Divulgação


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