O Partido Democrata conquistou o controle do Senado e da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições legislativas realizadas nesta terça-feira (3/11), encerrando a maioria republicana no Congresso e impondo uma derrota política ao presidente Donald Trump. A chamada onda azul avançou sobre estados tradicionalmente conservadores, como Texas, Kansas e Carolina do Sul, e mudou o equilíbrio de forças em Washington para os dois últimos anos do mandato presidencial.
A vitória democrata foi confirmada durante a madrugada desta quarta-feira (4/11), após uma sequência de resultados surpreendentes em estados que haviam apoiado Trump nas eleições presidenciais de 2024. Com a nova composição do Congresso, o presidente republicano terá de negociar com a oposição para aprovar parte de sua agenda legislativa.
Além de dificultar a aprovação de propostas do governo, a maioria democrata poderá ampliar a fiscalização sobre a Casa Branca, convocar integrantes da administração para prestar esclarecimentos e abrir investigações sobre decisões e gastos do Executivo.
Democratas fazem história no Texas e derrotam aliados de Trump
Uma das maiores surpresas das eleições americanas aconteceu no Texas, estado considerado um dos principais redutos eleitorais do Partido Republicano.
O democrata James Talarico, de 37 anos, derrotou o procurador-geral Ken Paxton, apoiado por Donald Trump, e conquistou uma cadeira no Senado americano. É a primeira vez desde 1988 que o Texas elege um democrata para o cargo.
Ex-professor de escola pública e deputado estadual, Talarico construiu sua campanha combinando referências religiosas, defesa da educação pública, combate à corrupção e críticas ao aumento do custo de vida.
Com formação em seminário presbiteriano, o político se apresenta como um cristão progressista e buscou conquistar eleitores independentes e religiosos, segmentos tradicionalmente disputados pelos republicanos.
O resultado ganhou ainda mais importância porque Trump havia vencido a eleição presidencial de 2024 no Texas por quase 14 pontos percentuais de vantagem.
A mudança no cenário político texano também alcançou o governo estadual. A democrata Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott, encerrando mais de três décadas sem uma vitória democrata na disputa pelo comando do estado.
Hinojosa será a primeira mulher latina a governar o Texas.
Kansas e Carolina do Sul ampliam vitória democrata
A onda democrata também alcançou o Kansas, onde o pastor metodista Adam Hamilton derrotou o senador republicano Roger Marshall.
O resultado representa um marco histórico: o estado não elegia um democrata para o Senado americano desde 1932, há 94 anos.
Na Carolina do Sul, outra região de forte tradição republicana, Annie Andrews conquistou uma cadeira no Senado ao derrotar Darline Graham, candidata apoiada por Trump.
A vitória chamou a atenção porque o presidente havia vencido no estado por quase 18 pontos percentuais nas eleições presidenciais de 2024.
Os democratas também conquistaram cadeiras anteriormente ocupadas por republicanos em estados como Iowa, Ohio, Maine e Carolina do Norte. Na Geórgia, o senador democrata Jon Ossoff garantiu a reeleição.
O conjunto desses resultados foi determinante para a mudança de comando do Congresso americano.
Economia, custo de vida e guerra com o Irã pesaram nas eleições
A insatisfação com a economia americana, o aumento do custo de vida e a guerra com o Irã estiveram entre os principais fatores que marcaram a disputa eleitoral.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos, realizada entre 29 de outubro e 2 de novembro com 1.765 adultos americanos, mostrou que 48% dos eleitores registrados consideravam o custo de vida a principal preocupação na hora de decidir o voto.
Outros 26% apontaram a defesa das instituições democráticas, enquanto 13% citaram a imigração.
O levantamento também revelou que quase metade dos entrevistados considerava que a situação financeira de suas famílias havia piorado desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025.
A guerra com o Irã também provocou desgaste político. Segundo a pesquisa, 55% dos entrevistados consideravam que o conflito não justificava seus custos, contra 25% que avaliavam o contrário.
Os dados ajudam a explicar o ambiente de insatisfação enfrentado pelos republicanos, inclusive entre setores do eleitorado que haviam apoiado Trump dois anos antes.
Trump reage à derrota e promete usar poder de veto
Diante da perda do controle do Congresso, Donald Trump procurou minimizar a responsabilidade pelos resultados eleitorais e argumentou que sua ausência das cédulas prejudicou os candidatos republicanos.
Em declarações à imprensa americana, o presidente afirmou que, se estivesse disputando a eleição, seu partido teria obtido um desempenho diferente.
Trump também sinalizou que pretende recorrer ao poder de veto presidencial para enfrentar a nova maioria democrata.
Em entrevista à CBS News, concedida ainda na terça-feira, antes do encerramento da votação, o republicano afirmou que está preparado para barrar projetos apresentados pela oposição e admitiu que poderá ser chamado de “Senhor Veto”.
O presidente também disse acreditar que a utilização desse instrumento poderá levar os democratas à mesa de negociações.
Pela Constituição dos Estados Unidos, o presidente pode vetar projetos aprovados pelo Congresso. Para derrubar um veto, deputados e senadores precisam reunir uma maioria de dois terços em cada uma das casas legislativas.
Entretanto, o veto funciona como instrumento de bloqueio. Embora Trump possa impedir a entrada em vigor de determinadas leis, não poderá obrigar os parlamentares a aprovar as propostas de seu governo.
O que muda para Donald Trump com o Congresso democrata?
A nova composição do Congresso, que assumirá suas funções em janeiro de 2027, representa uma mudança importante na dinâmica política de Washington.
Durante os dois primeiros anos do segundo mandato de Trump, os republicanos controlaram tanto a Câmara quanto o Senado, facilitando a tramitação de propostas alinhadas à Casa Branca.
Agora, com os democratas à frente das duas casas, o governo terá de lidar com uma oposição que contará com instrumentos institucionais para fiscalizar a administração e dificultar iniciativas legislativas.
Entre as principais mudanças estão o maior controle sobre o orçamento federal, a possibilidade de abertura de investigações parlamentares, a convocação de autoridades para depoimentos e a capacidade do Senado de bloquear determinadas nomeações presidenciais.
O novo cenário também poderá provocar impasses em negociações sobre gastos públicos, política econômica, imigração e relações internacionais.
Foto: Reprodução/Google Imagens
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