Entrevista – Dr. Jofran Frejat (PR/DF)

“Brasília precisa voltar a ser a capital da esperança porque, hoje, não é mais”, ressalta Jofran Frejat, pré-candidato ao governo pelo PR.

Perfil

Jofran Frejat

Quando veio para Brasília entre 1963 e 1964, o médico Jofran Frejat trouxe consigo a vontade de fazer carreira e vencer na vida aqui na capital federal. Com um pouco mais de 25 anos, o piauiense de Floriano, recém-formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, logo começou a trabalhar no atual Hospital Materno Infantil de Brasília – HMIB (na época era chamado de Hospital da L2).

Sempre buscando evoluir na profissão como médico, Frejat fez pós-graduação em cirurgia oncológica na Universidade de Londres, na Inglaterra. Ele foi secretário de Saúde quatro vezes e deputado federal por cinco mandatos, quatro deles consecutivos, sendo inclusive deputado constituinte. Trabalhou nos governos Hélio Prates, Elmo Serejo, Aimé Lamaison, José Ornellas e Joaquim Roriz. Os mais antigos atribuem a ele o mérito de ter erguido quase todos os hospitais que existem na rede pública de saúde.

Se as pesquisas de opinião estiverem certas, o doutor Jofran Frejat pode ser o próximo governador do Distrito Federal. Atualmente, ele está filiado ao Partido Republicano (PR), mas já passou pelo PFL, PP, PPB e PTB. Nas últimas eleições em 2014, mesmo com pouco tempo de campanha, disputou o segundo turno para o governo obtendo quase 45% dos votos.

Na manhã da última quarta-feira (07/02), Frejat recebeu o Expressão Brasiliense para uma entrevista exclusiva, na sede do PR/DF, no qual falou de sua trajetória e as suas propostas para Brasília. Confira.

Expressão Brasiliense: Doutor, o que se ouve nas ruas é que quando o senhor foi secretário de Saúde, a rede pública era referência para o Brasil e até mesmo internacional. O que levou a rede pública de saúde para esse cenário desastroso?

Jofran Frejat: Política. E política errada. Uma coisa que nós tínhamos era de que não havia interferência política dentro da Secretaria de Saúde. Eu fui secretário na gestão do Lamaison, do Ornellas e Roriz, e eles diziam que na Secretaria de Saúde não tinha política. Tanto é que havia a intenção de parlamentares indicar diretor de hospital e eu dizia “não, não pode”. Numa ocasião veio um parlamentar me pedir um emprego para uma pessoa dele e eu neguei. Eu falei que “não podia nomear alguém que depois não pudesse demitir”. Aí ele me disse: “ah, mas eu sou um deputado federal”. E eu respondi: “eu também. Então, ficamos empatados”. E acabou a história por aí. Você não pode nessa área fazer esse tipo de concessão. Tudo bem que para governar você tenha que acomodar um ou outro aliado, mas você não pode brincar com uma área tão delicada e crítica como a saúde. A saúde é técnica, ela não pode ser política.

EB: O que o senhor acha que mudou da sua época para os dias de hoje?

JF: Primeiro, eu acho que faltou uma definição técnica de diversas áreas. O mais curioso é que tentaram modificar ao invés de aprimorar o que já existia. A gente imaginava que os administradores subsequentes iriam corrigir os erros. Mas, infelizmente, não foi isso que aconteceu. E Brasília cresceu e não foi dotada de outras estruturas capazes de absolver a demanda que está aí. Quando eu comecei, a gente fez o Hospital de Ceilândia, depois o HRAN, Hospital de Apoio, Paranoá. Bom, até o Hospital de Santa Maria fui eu que mandei fazer a planta, porém, ele foi alterado, mas o primeiro recurso para começar a construí-lo eu que destinei. Aí eu te pergunto: qual o hospital novo que tem depois disso? Nenhum. Brasília, hoje, tem quase 3 milhões de habitantes que é uma demanda grande, fora o que vem de outros Estados em busca de atendimento por aqui. Naturalmente, que isso trouxe uma superlotação da rede. Hoje, eu também não sei como está o número de profissionais. Tem que reavaliar isso. Nós criamos condições para que a população fosse atendida. Criava-se um centro de saúde, nós colocávamos lá, clínicos, pediatras, ginecologistas, dentistas e etc e tal, e 10 agentes de saúde em cada posto ou centro. O agente de saúde passava nas casas e verificava se a criança estava com as vacinas em dias, se o adulto tinha feito sua consulta periódica. Isso foi sendo descontruído. E agora mesmo, essa desconstrução se repete. Estão querendo tirar dos centros de saúde, os clínicos, pediatras e ginecologistas para colocar um generalista. Nada contra o generalista. O generalista atua mais em postos urbanos e rurais, não em grandes centros. Qual é a dificuldade em deixar esse pessoal especializado. Por exemplo, será que uma senhora gostaria de examinada em sua intimidade por médico que for o ginecologista? Ou uma mãe vai aceitar que atendam o seu filho sem ser pediatra? É lógico que não. Então, como é que você tira isso dos centros e postos de saúde. Ou seja, estão empurrando isso para dentro de um hospital que é onde que ele vai encontar um especialista.

EB: O que senhor acha desse modelo que o Rollemberg está querendo implantar no Hospital de Base?

JF: Isso aí é uma forma de terceiriza o serviço de saúde. Imagina que você vai ter lá, profissionais contratados pela CLT e uma quantidade enorme de profissionais que são efetivos, estatutários. Como é que se resolve essa questão? Um tem uma determinada carga horária e o outro tem uma carga horária diferente. Um tem um tipo de salário e os demais outro tipo de salário. É como tentar erguer uma casa e dividi-la ao meio, ela não fica em pé. Está fadado ao fracasso. Nós temos que encontrar um caminho.

EB: Como avalia a atuação dos sindicatos ligados à saúde?

JF: O Sindicato dos Médicos tem sido muito duro com a gestão do Rollemberg. Eles estão tentando impedir essa formatação que estão querendo criar.

EB: Doutor, e quais são seus planos para a saúde do DF caso venha se eleger?

JF: Olha não é só a saúde, o trabalho é grande a ser feito. A saúde, naturalmente, será o elemento principal porque o povo está reclamando o dia todo. Eu estou vendo as pessoas chorando nas portas dos hospitais implorando por atendimento sem conseguir. Essa é uma das questões que tem que ser enfrentada como também a segurança pública. Como é que a gente vai fazer segurança pública do jeito que está? Todo dia é assalto em farmácias, restaurantes. Educação é outra área. Mobilidade urbana. Hoje eu tive uma reunião aqui e a pessoa veio me pedir desculpas porque ela passou horas no trânsito. Tudo isso, tem que ser enfrentado com seriedade e saúde nos temos que dar continuidade àquilo que vinha sendo feito. Por exemplo, as UPAs estão dando a resposta que se queria? Não. O que que está havendo? Falta alguém entrar lá e sabe as dificuldades que estão tendo. Tem que saber por que que não tem material? Os servidores estão reclamando que não tem material para atender à população. Se desde o começo do governo está se comprando sem fazer licitação, tem que saber qual é o problema que está havendo.

EB: Quanto ao servidor?

JF: Estão tentando colocar o rótulo de incompetência para o servidor. Isso é um equívoco. O servidor é sempre o primeiro a levar a pancada quando está em atendimento. Isso não é só na saúde. É na educação, na segurança, enfim. Aí chega um indivíduo que passou a madrugada na fila e não consegue atendimento e começa a falar “você não resolve nada” e etc e tal. Quer dizer, estão tentando colocar na testa do servidor o rótulo de incompetente. Agora, eu pergunto o seguinte: como é que esse pessoal gostava de mim? Não tem lógica. Esse pessoal foi competente na minha época e hoje é incompetente. O servidor está insatisfeito, está desestimulado. O médico, por exemplo, passa um medicamento e não tem na farmácia do posto ou centro. Não é culpa dele. Inclusive, eu conheço profissionais que estão tirando do bolso para comprar remédio para a população. Então, o servidor é que está levando a pancada. Aí vem com essa conversa que esses servidores têm que ser CLT, não pode ser estatutário. Isso é uma desculpa esfarrapada.

EB: E como o senhor avalia o governo Rollemberg?

JF: Olha, eu tenho evitado fazer qualquer avaliação. Porque é o tal negócio, eu me pergunto sempre o seguinte: do jeito que está a população precisa fazer avaliação? Não precisa.

EB: E as negociações do grupo político o qual o senhor pertence, como andam?

JF: Estamos indo bem.

EB: Mas, e essas especulações de que uma possível desunião venha a prejudicar o grupo?

JF: Isso sempre vai ter. Qualquer setor político tem sempre esse tipo de coisa. Um gostaria de estar numa posição, o outro naquela outra. O que que acontece comigo? Quando me procuraram, eu não estava nem preocupado com essas coisas todas. E me falavam: “olha quem estiver melhor nas pesquisas, será apoiado pelos demais”. Mas, o meu nome deslanchou por razões simples. Primeiro, é o recall das últimas eleições. Segundo, o meu trabalho na área da saúde que como você mesmo disse, era um trabalho com reconhecimento nacional e internacional. Terceiro, meu nome é limpo. Eu não tenho meu nome envolvido com essas irregularidades. Eu fui quatro vezes secretário de saúde, cinco vezes deputado federal, secretário-geral, hoje, seria o secretário-executivo do Ministério da Previdência, ministro interino da Previdência, e nunca me envolvi com essas coisas. E acho que o arrependimento do pessoal que deixou de votar em mim nas últimas eleições.

EB: O senhor acha que se tivesse mais tempo na campanha passada, o senhor teria ganho?

JF: É possível. É difícil de fazer essa avaliação. Algumas pessoas me dizem isso. Agora, a definição foi muito tarde. Eu tive quase que só um mês de campanha e tive quase 45% dos votos, algo em torno de 650 mil votos.

EB: Quanto a especulação de que se o grupo não venha fechar com o seu nome para governo, o senhor aceitaria concorrer a uma vaga ao Senado, por exemplo?

JF: Não, eu não estou interessado não. Eu já fui cinco vezes parlamentar. O objetivo nosso é recuperar a nossa cidade. Vocês estão vendo o que está acontecendo. Eu não tenho interesse a não ser em dar a minha contribuição, a minha capacidade, a minha experiência, para recuperar a nossa cidade. Brasília precisa voltar a ser a capital da esperança porque, hoje, não é mais. As pessoas aqui, e eu estou vendo isso, estão querendo sair de Brasília e tentar a vida lá fora. Não é verdade?

EB: Antes era o contrário. O senhor mesmo é um exemplo disso?

JF: Sim, era o contrário. As pessoas vinham de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e etc. Eu mesmo vim do Rio de Janeiro para cá após me formar. A gente tinha uma expectativa. Agora, eu estou vendo o pessoal querer ir embora de Brasília. Por que? Porque perdeu a esperança. Não podemos deixar acontecer isso até porque tudo que Brasília nos deu, nós temos que devolver de alguma forma, com trabalho, com seriedade.

EB: E como anda a saúde do Dr. Frejat? Vai ter pique para mais uma campanha?

JF: A minha saúde está ótima. Se alguém está esperando que eu vá morrer, está enganado. Minha mãe morreu aos 96. A minha irmã que faleceu ano passado morreu com 98. O meu irmão José, que foi deputado federal, fará 94 anos agora em março. A não ser que queiram me matar. Aí é complicado.

 

Da Redação

Foto: José Fernando Vilela

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